Sunday, February 27, 2005

Foi a faca

- Oi Arthur, desculpa te ligar a esta hora. Não sei o que faço com a minha mulher…

- Ah, tinha que ser essa vaca para tirar você do sério e você me ligar a essa hora da noite! Você já sabe Alie, se fosse minha esposa eu a colocava em uma caixa e mandava para a Groenlândia.

- Boa idéia Arthur, só me preocupo com o cheiro daqui a alguns dias, demora muito para esta caixa chegar na Groenlândia?

- Espera aí Alie, como assim cheiro? Onde você está?

- Estou na chácara e ela está morta Arthur, morta, você acha que eu ia te ligar para ouvir conselho matrimonial? Eu preciso me livrar do corpo dela!

            Arthur começa a gritar do outro lado da linha.

- Como assim Alie? De novo? Você não consegue se controlar com as pessoas? Caramba! Será que você não consegue ser normal e passar um ano sem matar alguém?

Descontrolado, Alie segura o choro estérico e o que escorre pelo seu nariz. O barulho emitido dá medo até do outro lado da linha. Desta vez não foi ele, ele começa a explicar em soluços e com uma voz que dá medo.

- Arthur. (choro) Arthur. Não fui eu. A gente brigou, é claro, aquela idiota era movida a brigas, mas eu não encostei a mão nela, não encostei Arthur – ele segura o choro, emitindo um barulho que faz com que Arthur sinta o desespero de Alie e comece a chorar também do outro lado da linha. – Depois da briga ela foi lavar a louça e eu fui ajudar, queria fazer as pases, não queria matá-la. Você acredita em mim Arthur?

Então Alie grita, parecendo ser o único modo de ser compreendido.

- NÃO FUI EU ARTHUR, EU NÃO QUERIA MATÁ-LA! Você acredita em mim desta vez?

- Claro Alie, eu acredito. – Arthur está desesperado, sabia que Alie tinha alguns antecedentes, mas nunca tinha se envolvido, conhecia Arthur havia alguns meses. Arthur chora do outro lado da linha com medo que ele peça a sua ajuda. Alie fica quieto por alguns segundos, o que Arthur ouve são só os soluços, o choro reprimido e o barulho da mata sinistra. A sensação é de pânico.

- Eu estava bem atrás dela, secando aquela maldita louça, quando ela derrubou um copo na pia. Parece que vejo em câmera lenta. Ela derruba o copo e dá um pulo para trás, fugindo dos cacos que espirram, e atrás estou eu, secando uma grande faca afiada de cortar carnes, ela vêm com força, sem saber que estou atrás, a faca entra nas suas costas, atravessando mais da metade do corpo dela, o berro parece o de um porco sendo sacrificado. Depois disto só escuto o barulho do corpo dela caindo no assoalho, o estrondo deu até eco mata adentro. Durante segundos fiquei ali parado, sem saber o que fazer, a faca toda ensangüentada, minha mão, minha camisa. Ela no chão, parada, morta, mas com a mesma cara de vadia envocada de sempre.

Arthur interrompe:

- Alie, você já tem antecedentes, não podemos nem chamar a polícia, não dá para contar esta história. Não dá para enviar este corpo para a Groenlândia, China, nem Amsterdã. Você vai ter que se livrar dela. Não tem vizinhos por aí, ela não tinha parentes, ninguém vai perguntar o que aconteceu. Livre-se dela Alie e pelo amor de deus, não me peça para ajudá-lo. – Arthur chora desesperado com medo de ter que ajudar.

- Certo amigo, já estou mais calmo, vou me livra dela, enterro junto com o casal de caseiros. Obrigado por me ouvir Arthur, quando as coisas acontecem e a gente não tem culpa, mas também não tem controle da situação, não há nada melhor do que um conselho amigo. Obrigado Arthur.

 

Sete meses depois.

 

- Alô, Arthur, desculpe te ligar a esta hora, sabe a empregada que trouxe da cidade? Estou tendo problemas com ela.

- Alie, eu já te disse milhares de vezes, problemas podem ser resolvidos entre duas pessoas com uma conversa franca.

- Não Arthur, desta vez ela não vai poder me ouvir.

Posted by buzzz in 15:52:57 | Permalink | Comments (1) »

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