Não importa quem, e sim como
O que tinha eram três idéias no papel e várias na cabeça, ele estava escrevendo à mão. Desempregado, tentava uma carreira de escritor no gênero thriller, não havia comentado nada com ninguém e o livro não havia saído dos manuscritos bagunçados na mesa da sala. Mark Lorgkawin, era o personagem principal. Inspirado em serial killers exagerados, o thriller continha crimes repulsivos e sarcásticos, realmente dementes, que classificariam seu personagem como uma das figuras mais nojentas da literatura.
Pela manhã, no computador, ele verifica os e-mails do dia: notícias, propagandas, mensagens de amigos, sacanagens, piadas, correntes… E um e-mail desconhecido aparece.
Uma mensagem de quem se diz ser Mark Lorgkawin, seu personagem…
Oi pai. Esta aventura está sendo maravilhosa. Sua primeira idéia funcionou de forma muito nojenta. Consegui o rapaz de 21 anos e os pés dele realmente não agüentaram, fica comprovado, como você previu no primeiro capítulo, um rottweiler esfomeado não resiste a um pé cheio de molho de churrasco.
P.S.: Permita-me chamar você de pai, você me deu uma vida realmente prazerosa com minha história.
O escritor fica imóvel e trêmulo. Não seria possível! O crime descrito no e-mail era exatamente o crime cometido pelo seu personagem no primeiro capítulo do livro, mas o livro não saiu da mesa da sala e o sobrenome do personagem foi tirado da sua imaginação, usando uma salada de letras idiota e sem lógica.
O que mais assustava era a maneira como o assassino escrevia seu e-mail, dava para sentir a frieza, era como se estivesse comunicando com alegria o nascimento de uma criança, era doentio. Dava para perceber sua brutalidade no modo que estruturava a mensagem, era escrita de qualquer jeito, sem nenhuma preocupação com estrutura ou virgulas ou gramática, era simplesmente um comunicado ao pai de uma tarefa realizada com satisfação.
O escritor corre até os manuscritos bagunçados e encontra o primeiro capítulo, intacto, da forma que ele tinha deixado, loucura. Nunca havia contado à ninguém sobre o livro, não tinha empregados na casa, há dias ninguém aparecia para visitar. Era impossível alguém ter lido aquilo.
Ele corre para o computador para pesquisar se haviam registros do crime… E a notícia estava lá, com a data de ontem. O crime aconteceu. Rottweiler devora os pés de um rapaz de 21 anos. A polícia encontrou ontem à tarde um rapaz morto sem os dois pés, a perícia encontrou um frasco de molho de churrasco perto do corpo e os tornozelos do garoto estavam sujos com o molho, a polícia suspeita que o cão comeu os pés do rapaz motivado pelo molho. As impressões digitais estão sendo pesquisadas.
As mãos no rosto, a mente chocada, o corpo tremendo, a sensação de estar sentindo o cheiro do molho de churrasco e do sangue, a sensação de sentir-se o assassino.
Ele não entendera nada, mas havia acontecido. Dor de cabeça, vertigem, ele não consegue pensar em nada que explique o caso, não há como explicar. Não, não e não. Eu criei a história. E ninguém leu isso. Ele passa o dia em estado de choque, sentado no sofá e chorando nervoso.
Na manhã seguinte, resolve não escrever nada, está tentando entender o acontecido. Ele já havia escrito três capítulos, três crimes. 20 maneiras de educar o mundo, eram 20 crimes selvagens, todos já estavam planejados na sua cabeça, mas agora não havia pressa nem inspiração para acabar o livro.
Para um homem solitário, a Internet é um lugar para passar horas interagindo com o mundo. Todo dia são mais 35 para ler. Notícias, propagandas, mensagens de amigos, sacanagens, piadas, correntes, porcarias e mais uma mensagem que ele não queria receber. Outra mensagem de Mark Lorgkawin…
Oi pai, estou muito excitado hoje, o segundo crime era um sonho. Quem imaginaria uma cena de desenho animado realmente acontecendo em pleno centro da cidade? Ninguém acreditava na cena! Anote aí, um cofre caindo do décimo andar na cabeça de um velho, realmente mata o velho. Há, há, há. Brijos do seu filho amado Mark Lorgkawin.
Desta vez ele abaixa a cabeça, coloca as mãos no rosto e chora desesperado por uns 3 minutos, nervoso e assustado. Não há o que fazer e nem mais alternativas para pensar, não havia a possibilidade de alguém ter lido seus manuscritos.
O terceiro crime também acontece. O e-mail também chega e a euforia positiva do assassino em contar os fatos é cada vez maior.
Os acontecimentos reais começam a aguçar as idéias na cabeça do escritor que resolve colocar o quarto crime no papel, planejado com maior frialdade desta vez, sem saber que a insanidade e o entusiasmo do assassino estão afetando e aprimorando os crimes descritos pelo escritor. Ele não é mais o mesmo, sua crueldade com os personagens mortos tende a ser cada vez maior.
Com um plano na cabeça, o escritor faz um teste e usa uma pessoa de nome conhecido como vítima no terceiro crime. O crime é humilhante e torturador, as ações do real assassino realmente mexeram com a cabeça do escritor, mas ele não tem consciência disso e aprimora as transgressões que cria.
Novamente o crime acontece, de um dia para o outro. Agora com um nome conhecido, a notícia aparece em todos os noticiários. O e-mail chega descrevendo a brutalidade, sempre com uma alta carga negativa e sarcástica e agora com uma entonação de heroísmo.
Quando escreveu este crime, o escritor tinha um plano na cabeça. Agora era hora de executar.
Ele muda o nome do livro. 20 maneiras de educar o mundo, torna-se 32 maneiras de se sentir bem. O nome não precisava mais ser vendedor, não precisava ter formato de best-seller, já que não poderia mais ser publicado.
Seu conteúdo possuía agora: 20 crimes incógnitos e aleatórios, conforme a proposta inicial e mais 12 crimes com alvos certeiros. Doze desafetos do escritor, os quais, segundo ele, mereciam uma lição nesta vida e a morte era uma grande lição, fácil de executar.
No total: 1 escritor anônimo, 1 assassino enigmático, 32 crimes desnecessários, 32 e-mails sangrentos e 32 notas sensacionalistas nos noticiários. 12 delas ocupavam agora lugares de destaque no mural da sala do escritor anônimo.
O livro foi queimado, crime a crime, enquanto o escritor tomava vinho seco em frente à lareira, relembrando o contentamento de ter sido correspondido, sabe-se lá por quem.
Um novo livro está sendo escrito: A extinção da espécie humana, ele já passou da metade, desta vez em forma de poemas, seu modo doente de descrever crimes piora a cada página. As coisas já começaram a acontecer, os e-mails com as descrições são cada vez mais delirantes e o escritor sente a cada dia mais prazer em escrever.