Monday, July 11, 2005

REVANCHE - Ele vai passar por aqui

Ele vai passar por aqui. É o caminho dele toda manhã e toda a noite. Mesmo com esta chuva, ele vai passar por aqui. Já vi ele passar por esta rua a pé em dias piores. Não tem erro, hoje a noite ele passa por aqui.

Posso medir o tamanho da minha raiva por esta situação maldita. Um temporal que não pára há 2 horas. A água nojenta desta rua cobrindo todo o meu pé vestido com este tênis vagabundo, agora inundado por esse líquido fedorento que sai desse bueiro cheio de ratos e cadáveres. Mas, tudo vai valer a pena quando ele passar por aqui.

Merda! Meu braço está doendo, não agüento mais segurar este porrete nessa posição ingrata, mas não posso errar a cabeça dele. Vai ser uma só na nuca. Pow! Foi assim que fez comigo, é assim que vai ser o troco. No inferno ele vai lembrar da ocasião de sua morte. “Morri no mesmo dia em que salvei minha própria vida.” Hilário. Ele vai passar por aqui e vai se arrepender do que fez hoje cedo.

Era a primeira vítima do dia. Quando dei voz de assalto, o filho da mãe conseguiu me distrair e me deu uma porrada com a maleta de metal. O desgraçado acertou meu rosto. Acertou o nariz que estourou na hora e a fivela daquela maleta de bicha acertou na minha boca como um anzol. Está sangrando até agora, cacete, meus braços estão sujos com o sangue escorrendo e misturado com esta chuva me deixa com a aparência de um serial killer velho em final de carreira. Meu nariz latejou o dia todo, dói pra cacete, e com a boca inchada pareço um doente, não precisaria roubar ninguém hoje, se alguém me visse, me daria uns trocados por dó.

Mas, com ele não vai ser assim, vai ser uma só. Pow! A sua última visão do mundo vai ser a minha cara sorrindo e esta rua fedorenta e miserável. Vai fazer companhia aos corpos dos marginais que a lei apaga todo dia e desova aqui. O fedor de carniça deste lugar vai lhe cair bem. Logo ele vai passar por aqui, é uma porrada e posso ir para casa feliz. Vou poder lavar este sangue que já está cheirando podre e grudando na minha pele. A cada dois minutos tenho que passar a mão no rosto e limpar um pouco esta nojeira. Pelo menos isto está deixando o bastão mais aderente à minha mão.

Já é uma da manhã e ele não passou por aqui, acho que foi a chuva. Agora não adianta mais, meu braço está amortecido de segurar este porrete para cima, eu não conseguiria acertar ele com força agora. Vou para casa, outro dia a gente se acerta, agora preciso dar um jeito nesse nariz torto e lavar esta camisa ensangüentada.

Posted by buzzz in 13:51:19
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