Sunday, February 5, 2006

Análises Cínicas

Ninguém nunca descobriu o que aconteceu nos anos em que trabalhei lá. Foi há muito tempo, nem me lembro exatamente, mas foi entre 2034 ou 2038. Já faz muito tempo. Fui demitido porque o laboratório foi interditado. Lembrei, pois desde março passo todo dia em frente a construção abandonada na esquina da Doutor Colares com a Professor Péricles (antiga Cruz Machado). Está tudo lacrado. Vigilância sanitária. CG Análises Clínicas, a placa continua lá pendurada e suja.

               Comecei a tomar ‘gosto pela coisa’ no segundo mês em que eu estava lá. Até aquele dia eu só tinha tirado seringas pequenas de sangue, mas naquele dia, o doutor havia pedido mais. Não me lembro qual era o doutor, a cidade estava cheia deles. Uma propaganda de Ponta Grossa feita em rede nacional em 2029 pelo prefeito que era do PSOL, havia atraído uma penca de doutorzinhos recém-formados em outras cidades. Mas só chegaram os piores, os que aparentemente nem aula freqüentaram nos tempos de faculdade. Bares e noitadas… Diplomas particulares.

                 Lembro que ela sentou na cadeira e mecanicamente eu fui cumprindo a rotina. Bom dia, meu nome é Hafild. Sente-se, por favor. Em que braço a senhora prefere? Só um momento enquanto eu preparo a seringa descartável. Odiava ter que falar aquilo daquela seringa reaproveitada. Na verdade, era uma seringa por semana, e para conseguir uma nova, tínhamos que levar a velha para o gerente analisar, se ele achava que ainda estava boa ainda, usávamos a mesma por duas ou três semanas. Economia.

                 Peguei o pedido de exame e me assustei quando li. 200ml de sangue. Fiquei imaginando que tipo de problema ela tinha, nunca havia visto alguém que precisasse retirar tanto sangue. Peguei minhas duas seringas grandes e fui executar meu serviço.

                 Quando puxei na primeira seringa, vi que o sangue era muito claro, a pele dela era muito clara, os olhos dela eram muito claros. Mas era quentinho como os outros, eu adorava aquele calor que sentia nas mãos quando puxava o sangue. Ela era fria, olhava pela janela como se nada estivesse acontecendo, e eu já havia tirado 100ml. 
                 
- A senhora não se assusta com o tanto de sangue que estou retirando? 
                  - Não, já estou acostumada. Não é a primeira vez.

                 Tirei tudo, ela foi embora, fui completar sua ficha e identificar os frascos na sala dos fundos, a qual chamávamos internamente de ‘Quarto dos Ratos’. Era nojenta. A faxineira só limpava em cima da mesa que usávamos para escrever, o resto era muito sujo, eu não me importava. Atrás desta sala havia uma porta que dava para os fundos. Lá ficavam, no tempo, os tambores de depósito de seringas. Estavam todos lotados, as seringas já caiam no chão e boiavam nas poças de água parada avermelhada pelo resto de sangue das seringas. Um cheiro de sangue forte tomava a sala quando aquela porta era aberta, mas ela quase nunca era aberta, jogávamos as seringas pela basculante. Os ratos e insetos alimentavam-se dos restos das seringas e dormiam no Quarto dos Ratos.

                 Sentei e comecei a preencher a ficha olhando para os frascos. Deu vontade de tomar aquele sangue clarinho. Segurei um dos frascos e vi que já não estava tão quente. Salivei. Engoli seco imaginando o sabor do sangue da mulher clarinha. Não havia ninguém ali, eu era o único que trabalhava no setor de coletas pela manhã. Só havia eu e a recepcionista. Abri e comei um gole pequeno. Desceu como vinho. Levantei da cadeira e segurei como se fosse uma taça, fechei os olhos, e me imaginei um rei romano. Meu palácio, meu harém, minhas jóias, minha túnica de rei, minha coroa de louros, minha sala dourada, tudo era amarelado de ouro. Em minhas mãos, uma taça do melhor vinho daquele império. Virei a taça com a ignorância e a autoridade de um rei, com um prazer enorme, com direito a estalos com a boca no final. Deliciei-me. O sabor era do melhor vinho que eu já havia tomado.  

                No final, abri os olhos e vi os dois frascos vazios. Cocei a cabeça pensando na bobagem que fiz e como eu explicaria o desaparecimento do sangue da moça. Não pude pensar muito, chegou mais um paciente para a coleta. Não repetiria mais aquela besteira.  

                O paciente entrou e sentou. Carlos. Procedimentos padrões, rotina de explicações e a mentira sobre a seringa, tudo pronto para mais uma coleta. Inseri a seringa na veia e comecei a puxar o sangue, este era escuro, nada de diferente, mas comecei a salivar novamente enquanto sentia o sangue quente entrando na seringa. Fui tomado por uma grande sede. Salivava e engolia, salivava e engolia. Lembrava o gosto do vinho. Sede. Vinho quente.  

Carlos agradeceu sorrindo, virou as costas e fechou a porta. Parecia que Carlos sabia que estava ali para servir ao rei. Abri a seringa e tomei o sangue. Ao fechar os olhos, a mesma imagem do eu rei formou-se muito nítida em meu pensamento, e desta vez parecia mais real. Era o Rei Hafild tomando o melhor vinho do império até se babar todo. Abri os olhos e vi que havia realmente me babado. Fui para o Quarto dos Ratos trocar de roupa, já era hora de ir embora.  

                Entrei no quartinho e vi os frascos vazios da moça clara em cima da mesa, lembrei que não havia resolvido aquilo ainda e mais, agora eu também tinha o sumiço do sangue de Carlos para explicar. Não tive outra opção. Retirei meu sangue e coloquei nos frascos.  

                Não sei por quantos meses isso aconteceu, já disse que já faz muito tempo, só sei que todos os dias eu tomava todo o sangue que retirava, e a cada ‘taça’ me sentia mais o Rei Hafild. No final da manhã, retirava meu sangue para repor. Nos últimos dias eu já estava tirando sangue das veias dos meus pés.  

Com o passar do tempo eu já enxergava tudo nitidamente, com os olhos abertos. O Quarto dos Ratos era a sala do meu harém, eu via as belas mulheres me esperando. Lá fora, no canto das seringas, eu via o povo trabalhando para me pagar impostos; e na sala de coleta, era onde eu tomava meu nobre vinho trazido pelos meus súditos.  

                Só parei quando fui demitido, foi difícil para o rei aceitar. Fiquei meses procurando emprego em outro laboratório porque ele me cobrava o vinho. Minha experiência no CG mais atrapalhava do que ajudava. A esta altura toda a cidade já sabia do Quarto dos Ratos e dos tambores de seringa. Mas ninguém sabia do meu reinado e do puro vinho com o qual eu era servido.  

                Hoje passo em frente e lembro de tudo, mas não tenho mais saudades do meu palácio, do meu harém e do saboroso vinho. O Rei Hafild teve que mudar seus hábitos. Estou trabalhando no hospital, transplante de rins. Um fígado meu já retirei em uma clínica clandestina, precisava repor um que ‘desapareceu’. Agora preciso pensar em como repor os rins antes de continuar servindo ao rei com a carne mais nobre do império.

Posted by buzzz in 14:41:45 | Permalink | Comments (1) »